Jesus Não É Cristão

Teorizando a prática cristã

O fim de uma era

Depois de refletir, ficou claro que este blog deveria ser deletado. Confesso que tem sido trabalhoso mantê-lo e também não faz sentido ter dois blogs.

Que fique assim: me considero um péssimo escritor e um teólogo ruim, mas acredito que o que faço pode influenciar positivamente a vida das pessoas.

Mantenham-se atualizados daquilo que escrevo no blog furoa.wordpress.com. Compartilhem e ajudem-me na tarefa de criar novas possibilidades de vida, num mundo mais belo e justo.

Deus existe?

O papel da religião, isto é, do discurso sobre o sagrado, é apontar para o divino. Mas como diz o ditado oriental, o sábio aponta para a lua, o tolo olha o dedo.

O tolo cético diz que a religião está cheia de contradições, é apenas um mito, não pode ser comprovada e deixa várias perguntas em aberto.

O tolo religioso, ignora as contradições da realidade, interpreta literalmente os mitos da religião, acha que pode capturar o inefável e que tem respostas para tudo.

Um tema que deixa claro o embate entre os dois tipos de tolos apontados acima, é a existência de Deus.

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O problema já começa no fato de que os debatedores pressupõem aquilo que querem provar. Em vez de darem um passo para trás e considerarem honestamente a questão, eles simplesmente procuram provas para aquilo que acreditam ou querem acreditar.

Uns argumentam que já experimentaram Deus e, por isso, Deus existe. Isso ignora o fato de que nossas experiências não são totalmente confiáveis, de que muitas experiências acontecem apenas dentro de nossa cabeça, sem qualquer interferência objetiva, e de que, se experiência justificasse alguma coisa, Javé, Thor, Zeus, Maria, Krishna, etc. seriam todos verdadeiros.

Um problema maior é aquele diagnosticado por Paul Tillich: argumentar pela existência de Deus é negar a Deus. Considerar tal discussão é uma nonsense, pois concebe Deus como um objeto qualquer e como se Deus pudesse ser analisado pela nossa limitada razão. Deus é o que transcende a — está além de — tudo. Pode-se argumentar sobre a existência de extraterrestres e do Monstro do Lago Ness, mas Deus transcende o próprio conceito de existência.

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Creio piamente que no futuro essa questão sobre a existência de Deus será inexistente. Nós teremos aprendido que, não só algo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, como também realidade e ficção se misturam. Nós, seres humanos, não temos acesso ao mundo como ele é, apenas ao mundo como nossas narrativas dizem que ele é.

Simone Weil se destaca nesse tema por saber abraçar as contradições como ninguém:

Caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe: Deus não existe. Qual o problema? Tenho certeza de que há um Deus no sentido de que tenho certeza que meu amor não é uma ilusão. Tenho certeza de que não há um Deus no sentido de que tenho certeza que nada de real se assemelha ao que posso conceber quando pronuncio esse nome. Só que o que não posso conceber não é uma ilusão.

Infelizmente, além do fato da maioria das pessoas não terem nenhum conhecimento de epistemologia, a maioria de nós ainda vive com a ideia de que uma coisa não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo (o chamado princípio da não-contradição). Esse princípio, como os orientais já sabem há mais de dois mil anos e só recentemente foi admitido pela matemática ocidental, não poderia estar mais longe da verdade.

Que somos nós sem o socorro daquilo que não existe? ~Valéry

(Cyber)Teologia Imanente: envolvimentos com a realidade

Uma definição comum de Teologia, mas já destruída pela roda da história e pelo desenvolvimento do conhecimento, é o estudo sobre o Sagrado. Como é óbvio, essa definição não faz sentido, já que é impossível estudar o Sagrado.

Uma possibilidade melhor e mais bem aceita entre os acadêmicos sérios — excluo aqueles que não conseguem ver nada no mundo além do que eles já creem — é que a Teologia seja o estudo sobre a experiência humana do Sagrado.

Colocando em outras palavras, poderia dizer que a Teologia é o estudo do que move o ser humano em sua relação com o outro e o mundo. Numa perspectiva cristã, podemos chamar essa força motriz de horizonte, ou seja, Deus.

Estudar o que move o ser humano é importante em todas as áreas da vida e da sociedade, possibilitando uma vida melhor e uma sociedade mais justa. A Teologia, pela sua própria definição, precisa ser imanente, estar em constante envolvimento com a realidade, para que possa cumprir seu papel de apresentar um bom horizonte à humanidade.

Os desenvolvimentos da Epistemologia (a teoria do conhecimento), as duas guerras mundiais e a crise ecológica nos obrigam a repensar a teologia. Visto que não conhecemos as coisas em si mesmas, apenas como elas aparecem a nós e que a linguagem molda nossa experiência, como podemos falar de Deus? Após o sofrimento tão grande como o das guerras do século passado, é possível acreditar num Deus que está no controle absoluto de tudo que acontece? É possível afirmar que a salvação está reservada a uma dimensão pós-morte quando estamos destruindo nosso lar?

Não podemos falar de Deus mesmo, podemos apenas usar metáforas que apontam para o divino. Não podemos crer num Deus que decreta a morte de seis milhões de judeus. Não podemos crer num Deus que despreza a sua própria criação.

Hoje, o fundamentalismo político e religioso renasce, a desigualdade dilacera grande parte da humanidade e a crise ecológica segue destruindo o planeta. Creio, e espero estar certo, que a Teologia pode nos ajudar a encontrar uma saída.

A Teologia, através de sua antropologia, nos ensina que nós só somos humanos na relação com o outro e que todo ser humano tem os mesmos direitos. Com isso, a desigualdade social é uma abominação. Pois se eu tenho o direito de comer, toda a humanidade também tem.

Outra lição da Teologia é a finitude humana. Somos seres pequeninos diante do universo infinito. Qualquer tentativa de criar uma lei imutável e aplicável a todo ser em qualquer parte do universo ou de dominar infinitamente sobre um planeta finito soa como insensatez e absurdo.

É preciso redescobrir aquilo que nos move — a tarefa chave da Teologia. Nosso movimento não pode ser resultado das besteiras proferidas pelos sacerdotes/publicitários do Deus-Mamon. Precisamos ter como horizonte a utopia de um mundo justo, igualitário, livre e pacífico.

Nosso tempo nos abre inúmeras possibilidades de uma Teologia envolvida com a realidade. O desenvolvimento da Inteligência Artificial, por exemplo, precisa dialogar com a antropologia teológica, questionando o que é ser humano em sua relação com a tecnologia. Que o núcleo subversivo da Teologia — pois ela é um anti-conservadorismo — nos ajude a caminhar para um horizonte melhor.