Por espaços de esperança para as crianças

por Furoa

Crianças da Baixada Fluminense, no Rio, brincam no Museu itinerante da Fundação Oswaldo Cruz.. Foto: Tânia Rêgo/ABrAs vidas das pessoas mudam profundamente dependendo de onde elas crescem, se educam e se socializam. No caso da infância e da adolescência, os espaços social e físico onde elas se desenvolvem condicionam o acesso às oportunidades de sobrevivência e desenvolvimento pessoal. Esta foi premissa básica do seminário do qual participei na Argentina no início de julho. Com o tema “Desigualdades Urbanas na Infância e Adolescência: direitos e políticas sociais urbanas”, o evento promovido pelo UNICEF, Fundação Arcor e Universidad Nacional de Tres de Febrero, mostrou que é fundamental pensar o planejamento das cidades e das políticas públicas que busquem eliminar a segregação urbana da infância.

É necessário reinventar as cidades que hoje são custosas, contaminadas, injustas, pouco produtivas, cidades patológicas. E as crianças são as que mais sofrem os impactos deste jeito de ser cidade, mas também as que têm mais energia para mudar esta situação. Três de cada quatro crianças vivem em áreas urbanas na América Latina e três em cada dez estão em lugares de alta precariedade.

As crianças são as que mais sofrem com o jeito errado de ser cidade. Mas também são as que têm mais energia para reinventar os espaços urbanos

Foram apresentadas pesquisas e vários “cases” de cidades “amigas da criança”, um título conferido pelo UNICEF a municípios que investem em políticas públicas que respeitam a infância. O interessante é que para a escolha de uma cidade “amiga da criança” os indicadores considerados não são apenas os da cidade específica, mas os de cada região ou setor do município, o que dá uma outra fotografia da realidade da infância. Diferentemente de tempos atrás, quando a desigualdade podia ser medida pela discrepância entre o urbano e o rural, hoje as maiores desigualdades estão dentro dos grandes centros urbanos, numa mesma cidade. Isso quer dizer que dependendo do endereço postal da criança, ela terá ou não acesso aos diretos básicos, e isso os indicadores dos grandes centros urbanos, quando tomados na média, camuflam.

Como criar espaços de esperança? Foram apresentadas iniciativas em diferentes contextos. Em uma cidade em El Salvador, pós-guerra civil, o prefeito tem aumentado significativamente o orçamento voltado às políticas que afetam a infância como educação, saúde, esportes etc. Também conhecemos o programa que acompanha crianças da Espanha que convivem com o desemprego de seus pais e um desencanto com o futuro. Outra experiência, apresentada por uma ONG da Argentina, tem como foco recuperar as praças como espaços de lazer e convivência. O trabalho trouxe de volta as crianças para estes espaços, mas também os idosos que podem com elas compartilhar histórias e a vida. Do Brasil foi apresentado o Programa “Vamos Jogar”, do UNICEF, que prevê usar os espaços que estão sendo construídos para a Copa do Mundo e Olimpíadas para garantir o direito ao esporte e lazer de crianças e adolescentes. Também do Brasil foram apresentadas as ações da Rede Nacional da Primeira Infância que junto com ações de outras organizações e governo, pretende atingir as metas dos Objetivos do Milênio relativos à primeira infância.

Às vezes, as coisas simples têm um impacto grande no curso de vida das crianças e afetam toda uma comunidade. Impossível não lembrar que Jesus tomou uma criança e colocou-a no meio (Mc 9.36), e que na cidade da visão do profeta Zacarias (8.5) as praças serão habitadas por velhos e crianças que nelas brincam. Que venha o Reino para as crianças!

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Fonte: RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social) / Escrito por Tania Wutzki, secretaria executiva.

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