A máquina vai parar

por Furoa

Será o próximo passo na evolução a transformação do ser humano a nada mais do que padrões eletrônicos?

— Alan Watts

Depois de passar um mês sem internet, eu percebi com mais clareza o quanto a tecnologia pode nos fazer mal. Muitas outras pessoas também tiveram essa preocupação e escreveram sobre os malefícios da tecnologia, mas neste post falarei apenas sobre dois livros e mostrarei o quanto eles foram proféticos.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932)

As flores do campo e as paisagens, advertiu, têm um grave defeito: são gratuitas. O amor à natureza não estimula a atividade de nenhuma fábrica.

No livro de Huxley, as pessoas são servas de um Estado totalitário e amam a sua servidão. Elas adoram a ciência e a civilização ocidental, deixaram de lado as instituições e a fidelidade sexual, não ficam doentes, têm a mesma expectativa de vida que todo mundo e são “produzidas” em massa numa espécie de fertilização in vitro (onde são modificadas para criar diversas castas). Enquanto dormem, as crianças passam por um processo chamado de hipnopédia, onde lições são reproduzidas num gravador para controlar seu comportamento.
Para fazer com que as pessoas amem ser escravas nesse mundo bizarro foi criado um narcótico chamado de “soma”, menos prejudicial e mais prazeroso do que qualquer droga que conhecemos.

1984, de George Orwell (1949)

Dois mais dois são cinco se o partido quiser.

O mundo que George Orwell descreve no livro 1984 não é menos estranho. Existe um partido chamado de Ingsoc que controla absolutamente tudo o que as pessoas fazem através de dispositivos chamados de teletelas. O líder do partido é chamado de Grande Irmão (Big Brother, em inglês) e em todos os lugares existem cartazes afirmando “O Grande Irmão está te observando”.
O protagonista do livro, Winston Smith, não se conforma com as verdades impostas pelo partido e tenta se rebelar. Ele faz tudo com a máxima cautela, mas o sistema é tão bem organizado que ele acaba sendo capturado, reprogramado para gostar do partido e, pouco depois, é morto.

Guerra é paz
Liberdade é escravidão
Ignorância é força.

A coisa tá feia

Não é difícil ver o quanto esses livros foram proféticos. A droga criada no universo de Admirável Mundo Novo é como os celulares e computadores hoje. Eles nos dominam, mas amamos ser escravos deles. A hipnopédia pode ser comparada com a mídia e a propaganda, que influenciam — controlam — o comportamento das pessoas, moldando opiniões e incentivando o consumo.
Um mundo em que tudo é observado, como o de 1984, é quase o mundo em que vivemos hoje. A NSA (Agência Nacional de Segurança dos EUA) consegue observar e controlar nossos arquivos e conversas, sabe onde estamos, nossa preferência política, etc. Graças a isso ela consegue controlar o que fazemos e, caso façamos algo que ela discorde, ela pode nos prender ou até matar.
Se você não ficou assustado com isso, provavelmente não entendeu o texto ou está com sérios problemas. A coisa tá feia! Nas palavras de Jacob Appelbaum, um dos maiores pesquisadores de segurança computacional, a vigilância é ainda pior do que nossos piores pesadelos.

O que que isso tem a ver com Jesus?

O incrível é que isso tem tudo a ver com a mensagem de Jesus. Eu tenho certeza que se ele vivesse hoje, seria o primeiro a defender o direito à privacidade e à liberdade porque foi isso que ele defendeu há dois mil anos. Ele não se importava que algumas pessoas não o seguissem e ainda mais: nunca forçou ninguém a concordar com ele.
Se você pensa que não precisa se importar com privacidade porque não tem nada a esconder, está entendendo a coisa toda de um jeito errado. Privacidade não é esconder coisas “erradas”. Privacidade é ter o direito de controlar quem tem acesso a determinadas partes de sua vida.
E vale lembrar que a vigilância tem um objetivo maléfico. A NSA e muitos outros governos vigiam as pessoas para controlá-las. Assim, se o governo falar que seguir a Jesus é errado e você discordar, você poderá ser morto.
Nenhum ser humano pode se deixar controlar por um sistema maléfico, muito menos amar a sua servidão. E se quisermos seguir a Jesus precisamos lutar pela liberdade até à morte.

Nesse ponto, as pessoas estavam dispostas a deixar controlar até os seus apetites. Qualquer sacrifício em troca de uma vida sossegada. Desde então, nós temos continuado a controlar. Isso não foi muito bom para a ‘verdade’, sem dúvida. Mas foi excelente para a ‘felicidade’.

— Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

Próximo post: De volta à sanidade

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