Bereishit: entendendo a criação

por Furoa

A relevância de Gênesis 1 para o mundo contemporâneo

Quando nós falamos de Gênesis inúmeras questões são levantadas. Pessoas debatem incansavelmente sobre evolucionismo e criacionismo, mas se esquecem do ponto principal: por que Gênesis foi escrito.

E para entendermos isso precisamos primeiro entender que existem verdades que são mais importante do que verdades literais. Nós vivemos um mundo que exalta a exatidão científica e a razão, mas tem coisas que a razão não consegue descrever.

Dante Alighieri, no seu clássico livro Divina Comédia, diz que o que ele viu era impossível de se dizer em uma prosa e por isso escreveu o livro todo em poesia.

A poesia tem um papel muito importante na Bíblia exatamente por causa disso, ela consegue dizer verdades que o texto literal e a prosa não conseguem captar. Mas a poesia bíblica não está só presente nos Salmos. Gênesis 1 também é uma poema, com ritmo, métrica e refrão.

O texto é tão rico que apenas na primeira palavra, Bereishit, é possível fazer inúmeras reflexões. Bereishit pode significar “no princípio”, como é traduzido nas Bíblias, mas também pode significar “ele criou seis” (o que em hebraico seria bara sheet), como se Deus estivesse criando os dias em que ele criaria o mundo.

Aliás, é comum ver gente defendendo que o mundo foi criado em seis dias literais, mas é preciso tomar cuidado com isso. Primeiro porque, como descobrimos, existe verdades mais profundas que verdades literais; segundo porque isso contradiz fatos muito bem estabelecidos da ciência; terceiro porque não faz sentido, visto que o sol e a lua — que definem o que é dia — só foram criados no quarto dia; quarto, e mais importante, porque a palavra “dia” no hebraico é yom, que significa período de tempo, não um dia de 24 horas.

Enfim, para entender um texto é necessário entender o seu background. A Torá (cinco primeiros livros da Bíblia) foi escrita quando os judeus estavam num exílio. Foram tirados de sua terra e escravizados num lugar distante chamado de Babilônia. A identidade desse povo estava se perdendo e, para recuperá-la, escribas compilaram contos orais no que hoje é conhecido como Torá.

O foco desses cinco livros é a libertação de Israel do Egito, encontrada no livro do Êxodo. Os escribas então escreveram a história do Êxodo para lembrar o povo que, assim como Israel fora liberto da escravidão do Egito, ele receberia a liberdade de novo.

Mas isso levanta muitas questões. Por que Deus se importaria de salvar um determinado povo? Por causa da promessa de Deus a um homem chamado Abraão. E por que Abraão foi escolhido por Deus? Por causa de sua disposição a fazer do mundo um lugar melhor. E se o mundo pode ser um lugar melhor, ele não é perfeito. Se o mundo não é perfeito, de onde vem a imperfeição? Do pecado original, o ato de rebeldia de todo ser humano perante Deus. Mas se o ser humano fez algo errado, então existia um caminho certo. E que caminho certo é esse? O narrado em Gênesis 1. Não faria sentido contar só a história do Êxodo sem contar o que aconteceu antes (Gênesis) e também o que aconteceu depois (Levítico, Números e Deuteronômio).

Gênesis 1 foi escrito para mostrar que o ser humano escolheu o mal ao invés do bem e é a partir desse fato que toda a história de Israel se desenrola.

O texto também foi um tanto radical porque naquela época as pessoas adoravam os astros, como o sol e a lua, e também criam que o mundo era o resultado de uma briga de deuses. Mas em Gênesis 1, foi narrada uma história completamente diferente. Os astros não eram deuses, ele foram criados por Deus! E o mundo não era o resultado de contendas, mas sim o resultado da alegria e criatividade divina.

Essas ideias foram muito provocantes em sua época e ainda são hoje. Gênesis 1 nos diz que a vida é algo bom, cheio de alegria e da bondade de Deus e que esse Deus se importa conosco e nos ajuda a sermos pessoas melhores.

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