Espiritualidade barata

por Furoa

Análise da Teologia da Prosperidade e do Budismo Light à luz da mensagem de Jesus de Nazaré

No mundo inteiro, inclusive no Brasil, há um grande crescimento da Teologia da Prosperidade, uma adaptação do cristianismo à lógica capitalista extremamente perigosa que deixa de lado ensinamentos básicos de Jesus: o cuidado dos pobres, o gigante perigo do dinheiro e viver feliz em toda situação (graça). Além da Teologia da Prosperidade, cresce também outro tipo de espiritualidade barata: o “Budismo Light”[1] que afirma que podemos fazer o que quisermos, desde que o façamos com atenção (mindful). O Budismo Light pega conceitos do budismo e os aplica à lógica de mercado, dizendo às pessoas o que elas querem ouvir, sem entrar em choque com o capitalismo.

Ambas as visões — Teologia da Prosperidade e Budismo Light — falham drasticamente por nos dar uma falsa visão de nós mesmos e por nos induzir a não fazer nada pelo mundo ao nosso redor. Elas negam o fato de que é impossível viver sem passar por dúvidas, dor, angústia e, assim como o capitalismo, afirmam que possuem aquilo que nos fará felizes e realizados. Essas profundas distorções do cristianismo e do budismo são perfeitamente condizentes com a vontade das grandes corporações pois leva as pessoas a não lutarem por mudanças na sociedade. “Se está passando fome é por falta de fé”, diz o adepto da Teologia da Prosperidade; “Não importa se estou causando miséria com meu estilo de vida, o sistema automaticamente cuidará de todos”, afirma o budista light.

Como se pode perceber, toda religião precisa de aspectos interiores e exteriores, isto é, precisa ajudar as pessoas a se encontrarem (interior) e a transformarem a sociedade (exterior). Nenhuma tradição religiosa, nem católica, nem protestante, nem de outras religiões, conseguiu suprir os dois aspectos por muito tempo.

Freud dizia que a religião infantiliza pois ela nos leva a ver nosso interior de forma distorcida, nos leva a negar a dúvida, a dor e a angústia que são inerentes à vida humana. Marx dizia que a religião era o ópio do povo porque levava todos os seus adeptos a se preocuparem apenas com questões de outro mundo, deixando esta vida de lado — lógica implantada pelos grandes impérios para conseguir o óbvio benefício da dominação. A Teologia da Prosperidade e o Budismo Light são formas de espiritualidade que radicalizam a má compreensão do interior e do exterior já feita por quase todas as tradições religiosas. Contra essas perspectivas, em especial contra a Teologia da Prosperidade e o Budismo Light, apresento o caminho de Jesus.

ω

O nazareno foi, como todos sabem, muito radical. Ele desafiava a religião de sua época por ser cega tanto às questões interiores quanto exteriores do ser humano. Jesus afirmava uma fé que ia além da crença e sentiu-se abandonado até por Deus — a cruz é a maior prova de que viver é passar por momentos de profundo vazio. Jesus também defendia o direito dos pobres e oprimidos, criticando os líderes religiosos de sua época por se preocuparem tanto com as riquezas[2].

A Teologia da Prosperidade e o Budismo Light demonstram de forma absurda uma espiritualidade alienante que nos impede de olhar corretamente para nós mesmos e para os outros. Jesus, o suposto mestre do primeiro movimento e muito admirado por adeptos do segundo, mostrou uma visão completamente diferente de espiritualidade. Ele nos mostrou que o vazio e a dúvida fazem parte da nossa vida e que devemos lutar incessantemente por justiça. Que possamos seguir os seus passos!

PS: não podemos nos prender à dicotomia entre interior e exterior, é necessário transcender esses conceitos, mas por motivos didáticos os mantive neste post.

[1] Expressão criada por mim mesmo. Alguns o chamam de budismo consumista, corporativista, etc.
[2] Jesus fala claramente sobre esses tópicos no Sermão do Monte (Mateus 5-7). Jesus se afirma abandonado por Deus em Mt 27,46 e Mc 15,34.
Artigos e livros sobre o tema:
From Western Marxism to Western Buddhism, de Slavoj Žižek.
Losing Our Religion, entrevista com o professor Robert Sharf, de Berkeley.
Insurrection: To Believe Is Human To Doubt, Divine, de Peter Rollins.
Anúncios