A realidade humana: do silêncio ao sofrimento

por Furoa

A única forma de não cairmos na tentação da modernidade de reduzir todos os mistérios da vida a um problema científico ou teórico a ser desvendado é ficar na angústia diante do sofrimento dos inocentes e na crise insolúvel provocada pela realidade do mal e a confissão de fé em um Deus Amor-Liberdade.

Jung Mo Sung

Estou contente por estar de volta à rotina, mas também por ter tido um momento de descanso. O silêncio, o descanso e a solitude são partes fundamentais da espiritualidade. São nesses momentos que nos desprendemos dos infinitos ruídos da sociedade, imergimos em nós mesmos e refletimos sobre a ação de Deus no mundo e em nossas vidas. São momentos dolorosos, pois nos confrontamos com quem realmente somos e com nossas reais intenções, mas são necessários para nosso crescimento.

Esse meu momento de silêncio aumentou meu problema com o cristianismo propagado pela mídia. Eu não suporto essa “cultura gospel”, as músicas gospels, o universo gospel, a chatice de muitos crentes e aquele discurso de sempre nas igrejas que nada têm a ver com Jesus. Os discípulos de Jesus nunca institucionalizaram sua fé, nem a venderam, nem a impuseram sobre os outros. Ser cristão é mudar o mundo de baixo pra cima, cuidar daqueles que são excluídos, viver em comunidade e amar radicalmente, não impor regras aos outros. Para sermos cristãos, não podemos nos conformar com o cristianismo da mídia.

Além de ter um momento de silêncio e de pensar sobre o cristianismo midiático, refleti sobre o sofrimento. A questão “por que existe sofrimento?” existe desde o surgimento da humanidade e muitos cristãos têm uma resposta insatisfatória para ela. Dizem que tudo que acontece é o desenrolar da vontade de Deus. Sinceramente, essa resposta é inútil e cruel. Além de ser impossível negar a participação humana — positiva e negativa — na história, é difícil crer que crianças morrem de forma dolorosa pelos caprichos de Deus. Mas eu entendo que muitos cristãos creiam dessa forma, afinal eles são incrivelmente cruéis.

Algumas escolas filosóficas tentaram entender o sofrimento. Os hedonistas diziam que bem e mal consistem respectivamente em prazer e dor e que devemos evitar a dor e viver num estado de tranquilidade; os estoicos afirmavam que devemos ser indiferentes ao prazer e à dor e nos dedicarmos à razão e à virtude; os budistas diziam que o sofrimento é consequência do desejo; pessimistas acreditavam que viver é sofrimento, etc. Essas teorias são úteis, mas não respondem plenamente a questão “por que existe sofrimento”.

Cheguei à conclusão de que não há resposta nenhuma. Isso pode te surpreender, afinal a maioria dos cristãos se recusam a reconhecer que não existem respostas prontas para tudo. Eu sei que há sofrimento e entendo que grande parte dele é causado pela nossa ganância e por nosso egocentrismo, mas nem todo sofrimento é compreensível. Sei também que Deus não causa sofrimento, mas que sofre conosco, nos ajuda a levantarmos e deseja um mundo melhor.

 

Convido você a buscar o silêncio, a se desligar do mar de informações que nos assedia o tempo todo. Desligue-se, vá para um lugar calmo, sinta a presença de Deus e reflita sobre a atuação de Deus no mundo. Fuja do cristianismo midiático, dos pastores-empreendedores, dos templos suntuosos e das músicas hipnotizantes. Reconheça que é humano e que nunca conseguirá responder todas as suas dúvidas e inquietações. Viva de acordo com o ensino de Jesus. Torne-se cada vez mais humano, dedicando-se a estar com aqueles que sofrem.

A verdade que, de acordo com Jesus, nos fará livres, não é a verdade objetiva das ciências e muito menos a verdade da teologia: a Bíblia não é um livro de cosmologia, como tampouco é um manual de antropologia ou de teologia. A revelação da Escritura não reside em fazer-nos saber como somos, como Deus está feito, qual é a natureza das coisas ou quais são as leis da geometria e coisas semelhantes, como se pudéramos salvar-nos através do “conhecimento” da verdade. A única verdade da Escritura se revela como aquela que no curso do tempo não pode ser objeto de nenhuma desmistificação – já que não é um enunciado experimental, lógico, nem metafísico, senão uma apelação prática – é a verdade do amor, da caritas.

— Gianni Vattimo

Anúncios