O que é Deus?

por Furoa

“O que eu amo quando amo meu Deus?” (Santo Agostinho)

Jacques Lacan foi um grande psicanalista do século passado. Ele dividia o mundo em três níveis: imaginário, simbólico e real. Essa sua tríade pode nos ajudar a entender o que é Deus.

Imaginário

Acontece quando enxergamos algo ou o outro como semelhante a nós. Deus é imaginário quando projetamos nele aquilo que somos: um ser que pensa como nós, tem desejos, sentimentos, etc.

Simbólico

Este acontece quando o nosso subconsciente é projetado no outro. Deus é simbólico quando o concebemos “além da existência”, realidade inefável.

Real

É oposto ao imaginário e resiste à simbolização. É tudo aquilo que o imaginário e o simbólico não conseguem captar. Ele está sempre presente, é algo não visto diretamente, mas incorporado na textura de tudo.

Peter Rollins, teólogo irlandês, propõe que pensemos em Deus como (o) Real*.

Tradição

Após pensar na tríade lacaniana: imaginário, simbólico e Real, vamos relembrar aquilo que os pais de nossa fé pensavam quando pensavam sobre Deus.

A frase de Santo Agostinho, já descrita acima: “o que eu amo quando amo meu Deus?” demonstra um Deus que pode ser amado, mas que não pode ser compreendido plenamente. Esse é um paradigma muito importante sempre que pensamos sobre Deus.

Vejamos o que São Gregório de Nissa (aprox. 330-395), São Leão Magno (400-461) e Santo Anselmo de Cantuária (aprox. 1033-1109) têm a nos dizer:

“Quem quiser se aproximar de Deus deve afastar-se de todo o visível e como quem está sobre um monte, levantando sua mente para o invisível e incompreensível, crer que a divindade está ali onde a inteligência não alcança.” (São Gregório de Nissa)

“Mesmo que se tenha progredido muito nas coisas divinas, ninguém nunca está mais perto da verdade do que quando alguém entende que essas coisas ainda precisam ser descobertas. Aquele que acredita que atingiu a meta, longe de encontrar o que busca, cai na beira da estrada.” (São Leão Magno)

“Portanto, ó Senhor, tu não és apenas aquilo de que não é possível pensar nada maior, mas és, também, tão grande que superas a nossa possibilidade de pensar-te. Com efeito, supondo que fosse possível pensar que existe um ser dessa espécie, se tu não fosses esse ser, poder-se-ia pensar uma coisa maior que tu; o que é impossível.” (Santo Anselmo de Cantuária)

Todos esses santos nos ensinam que Deus está além de qualquer compreensão humana e que, portanto, não podemos nos julgar detentores da verdade absoluta/divina.

Devemos lembrar que idolatria é tentar entender ou afirmar a essência de Deus, seja em imagens ou em conceitos. Logo, um sistema teológico que tenta afirmar plenamente o que/quem é Deus é idolatria.

Juntar as afirmações de nossos/as antepassados/as com aquilo que Lacan chamou de Real é, talvez, a melhor forma de pensar sobre Deus.

“Deus nunca poderia nem deveria ser reduzido a um mero objeto de consideração, pois na fé, Deus é experimentado como o sujeito último. Deus não é um problema teórico para resolver de alguma forma, mas sim um mistério a ser participado. Essa perspectiva é evidenciada na própria Bíblia, quando notamos que o termo ‘conhecer’ na tradição hebraica (em contraste com a tradição grega) é sobre envolvimento em um encontro íntimo, ao invés de descrever algum fato objetivo: a verdade religiosa é, portanto, o que transforma a realidade em vez daquilo que a descreve.” (Peter Rollins)

* Deus como Real não é panteísmo. O Real resiste a representação, enquanto o mundo é representação.

PS: existe um texto anterior neste blog chamado “Deus“, onde discorro sobre as afirmações de João 4.24 e 1 João 4.8.

PS2: a parte de Lacan deste texto foi baseado no texto “God is (the) Real“, do Peter Rollins.

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