Desespero

por Furoa

Desespero é aquilo que acontece quando a vida não cabe em palavras. É algo doloroso, pois para o ser humano, não conseguir traduzir a vida em palavras é como não existir.

Dostoiévski, escritor russo, entendia muito bem de desespero. Este foi a motivação por trás de seus livros. Dizem que Dostoiévski foi o único escritor que consegue irritar todos os tipos de leitores. Creio que isso acontece porque o desespero, emoção chave de seus livros, é algo profundo, presente em todas as pessoas.

Algo tão profundo e intrínseco à existência, como o desespero, não poderia ser ignorado. Mas julgo dizer que ninguém ousa falar do desespero porque é ele que mantém a vida em equilíbrio. É o desespero que nos mostra a falsidade de nossos sonhos e o lado positivo de nossos pesadelos. É ele que nos acorda pra vida e mostra a nossa pequenez.

E o que é o desespero senão o reconhecimento súbito de nossa finitude? Não é o desespero que sentimos quando percebemos que somos um nada diante da imensidão do espaço e do tempo? Porém, reconhecer nossa finitude é necessário. Não reconhecê-la é o pecado original, que tem levado inúmeros seres humanos a vidas perdidas, tentando ser deuses. Perceber a nossa finitude desloca nossos projetos e deixa claro que nenhuma criação humana é absoluta.

Desespero nos faz perceber que somos tão pequenos diante do infinito que somos quase um nada. Mas é esse mesmo desespero que nos leva a encontrar quem nós realmente somos.

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