A mulher que fechava olhos

por Furoa

Deus faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. (Mateus 5,45)

Maria era uma jovem normal. Tinha vinte anos, estudava medicina (do que se deduz que era de família abastada e, portanto, branca) e era admirada por todos. Era orgulho de seus pais e centro das atenções em todas as festividades da família.

O problema era que a medicina pode levar o estudante a sentir compaixão pelas pessoas. Isso, para a felicidade de alguns, acontece pouco. Mas Maria foi uma das (des)afortunadas que teve seu jeito de encarar a vida radicalmente transformado pelo ato de cuidar de pessoas doloridas.

Uma conversa muito comum entre os familiares, amigos e colegas de Maria era sobre o quanto eles eram superiores aos outros — pobres, pessoas com opiniões diferentes, etc. Ela se sentia incomodada com isso. “Esse sentimento de superioridade”, pensava, “é cheio de orgulho, presunção e prazer mórbido, sem compaixão nenhuma.”

Aos poucos, ouvir esses discursos foi ficando insuportável. Chegara o ponto em que Maria preferia cuidar dos pobres a estar com seus colegas e amigos. Os pobres doentes eram sinceros e compassivos. Faziam de tudo e por quem quer que fosse: rico, pobre, conservador ou liberal. Para eles, os rótulos não importavam. Eram seres humanos e isso bastava.

Com isso, Maria aprendeu que não deveria se identificar apenas com aqueles com quem ela concordava ou com “pessoas boas”, mas com toda a humanidade. Ela não era nada demais. Era apenas um ser humano, assim como o favelado, o bandido e o empresário que vive às custas de trabalhadores mal pagos.

Após se formar, Maria dedicou-se totalmente a cuidar dos pobres. E sempre que alguém, inspirado pelo seu trabalho, perguntava “Como posso fazer algo parecido?”, Maria convidava: “feche os olhos para tudo o que te faz superior”. Faço a vocês o mesmo convite.

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