O núcleo do Cristianismo: apontamentos a partir de Alain Badiou

por Furoa

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Introdução

Este ensaio almeja lançar luz sobre uma nova perspectiva de entender o núcleo da mensagem cristã. Aqui, partiremos do conceito de Alain Badiou de “evento”, aplicando-o à crucificação de Jesus e apontaremos algumas consequências dessa leitura.

Como todo ensaio, não pretendo fazer uma análise profunda, apenas criar novos questionamentos e novas formas de se entender o cristianismo – tarefa que considero fundamental em nossos dias.

Os ensinos e o significado da vida de Jesus podem ser apresentados de diversas formas. Creio que a mais significativa – e pretendo demonstrar isso ao longo deste ensaio – seja a feita sobre a ótica do evento da crucificação. A partir dela, podemos fazer uma leitura ampla do evangelho, que o compreende em todas suas implicações.

O “evento cristão”

Porém, antes de falarmos sobre o evento da crucificação, precisamos entender o que Alain Badiou entende por “evento”:

Denomino ‘evento’ uma ruptura na disposição normal dos corpos e das linguagens tal como ela existe para uma situação particular […] ou tal como aparece num mundo particular […] O que é importante aqui é notar que um evento não é a realização de uma possibilidade interna à situação ou dependente das leis transcendentais do mundo. Um evento é a criação de novas possibilidades. […] O que também pode ser dito: em relação à situação ou ao mundo, um evento abre a possibilidade daquilo que, do estrito ponto de vista da composição dessa situação ou da legalidade desse mundo, é propriamente impossível. (BADIOU, 2012, p. 138; ênfase minha)

Neste ensaio, por motivos de extensão e de didática, pressuponho a crucificação de Jesus como o evento cristão definitivo, isto é, a crucificação abre novas possibilidades de forma que nenhum outro fato da vida de Jesus de Nazaré o faz. A partir desse ponto de partida, somos obrigados a perguntar: a crucificação de Jesus cria quais novas possibilidades?

Pensemos no dito de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Ver Jesus, aquele que tinha a maior intimidade com o Pai, ser abandonado por ele foi, com certeza, uma experiência traumática para seus/uas discípulos/as. Isso reafirma a mensagem do livro bíblico de Jó de que não há significado ou explicação para o sofrimento. Culminando no fato de que não há significado a priori na vida, nós temos de construí-lo.

A imagem de Jesus entregue ao horror da crucificação nos abre a possibilidade de novas relações com o divino. O culto como programa periódico perde o sentido. Deus sai do templo e de suas liturgias e passa a habitar o cotidiano. A relação particular com Deus, que acontecia somente através dos sacrifícios feitos pelo sacerdote no templo, é universalizada.

A mensagem ética de Jesus

Não é difícil perceber como a ética é o centro da mensagem de Jesus. Vários outros autores já perceberam isso antes. Porém, ver o evangelho sobre a ótica do evento cristão nos permite uma compreensão mais clara da própria ética de Jesus, pois o evento cria um novo jeito de ser-no-mundo e de relacionar-se com o outro e com a criação. Novamente, antes de prosseguirmos, é necessário definir o que é ética.

Para Aristóteles, ética é a busca pelo bem supremo: a felicidade.

A ética, como vista por Aristóteles, é uma tentativa de descobrir nossa finalidade principal ou bem mais elevado: um objetivo que ele afirma ser realmente final. […] Tal finalidade principal é universalmente chamada felicidade. (Aristóteles, IEP)

Para a filósofa brasileira Marcia Tiburi, ética é

a qualidade das relações que estabelecemos com o que há neste mundo e, sobretudo, uns com os outros, enquanto essas relações se fazem como relações humanas baseadas na linguagem que criamos diariamente mesmo sem saber. (2014, p. 17)

A ética de Jesus é afirmada categoricamente em sua crucificação. Esse evento nos mostra que ela não é uma nova lei, uma nova listas de coisas que devem ou não ser feitas. A ética de Jesus transcende isso, é baseada num amor que consome toda a nossa existência.

Na crucificação vemos um ser humano que entregou totalmente sua vida não a uma causa ou agenda, mas ao mundo – não a particularidades, mas ao universo – mostrando que é possível viver diferentemente. Em Jesus não vemos um Deus tirano que abusa de seu poder, mas um Deus que se fez fraco e se entregou à morte na cruz.

O evento da crucificação de Jesus nos mostra que o instrumento mais poderoso que o ser humano poderia criar, a cruz, é derrotado pela paz. A prisão que a hierarquia e os impérios criam não vence o compartilhar do pão. É por isso que a morte de Jesus é uma boa notícia: ela nos emancipa do totalitarismo das imposições religiosas, econômicas, políticas e sociais.

Porém, conhecer intelectualmente as doutrinas e cada aspecto da ética de Jesus não serve para nada. A ética é performativa. Uma ética abstrata, não inserida no cotidiano e não praticada é contraditória e inútil. Ética só acontece no mundo das relações e da convivência humana. Ou seja, só existe ética enquanto esta é praticada e está inserida no dia a dia.

Da mesma forma, não adianta ler, reler e decorar a mensagem de Jesus, é preciso vivê-la. Talvez seja verdade que os cristãos leem tanto a Bíblia que se esqueceram de praticá-la. E não adianta viver o evangelho como hábito ou lei, é preciso entregar-se ao amor sem reservas.

Viva por uma Ideia

Para concluir, após entender o evento cristão e suas consequências para as relações humanas, é preciso entender como o cristianismo acontece na história. Para isso, retomemos outro conceito de Alain Badiou: a “Ideia”.

Denomino “Ideia” uma totalização abstrata dos três elementos primitivos: um processo de verdade, um pertencimento histórico e uma subjetivação individual. Podemos dar de imediato uma definição formal da Ideia: uma Ideia é a subjetivação de uma relação entre a singularidade de um processo de verdade e uma representação da História. (BADIOU, 2012, p. 134; ênfase minha)

Considerando o cristianismo como uma Ideia, podemos dizer que ele nos possibilita participar de um processo inteiramente novo da História, de recriação dos conceitos religiosos, econômicos, políticos e sociais. Assim, o cristianismo deixa de ser um conjunto de crenças — o que não era a aspiração de seus fundadores — e passa a ser, emprestando a terminologia de Badiou, uma “operação”. O cristianismo só existe na fronteira do indivíduo e do processo divino de criar um novo jeito de ser-no-mundo. (BADIOU, 2012)

Bultmann (2005) disse que o evangelho centra-se numa decisão, a favor ou não, de viver os valores do Reino de Deus. Ao ver as novas possibilidades surgidas na cruz, nós podemos negá-la e querer o modo antigo de vida (reação) ou aceitá-la, criando um mundo justo (revolução). Resta a nós aceitar viver pela Ideia cristã ou rejeitá-la.

Referências Bibliográficas

ARISTOTLE. In: Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: <www.iep.utm.edu/aristotl/#H7>. Acesso: 24 fev. 2015.
BADIOU, A. A Hipótese Comunista. São Paulo: Boitempo, 2012 (Estado de Sítio).
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. BJ. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
BULTMANN, R. Jesus.São Paulo: Teológica, 2005.
ERCULINO, S.C.N. Deus em Sartre: Má-fé e Aspiração. In: Páginas de Filosofia, v. 5, n. 1, p. 17-44, jan./jun. 2013. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/PF/article/viewFile/3312/3838>. Acesso: 24 fev. 2015.
The Pervert’s Guide to Ideology. Direção: Sophie Fiennes. Texto: Slavoj Zizek. 2012.
TIBURI, M. Filosofia Prática: ética, vida cotidiana, vida virtual. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.
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