Introdução aos exercícios para uma espiritualidade saudável

por Furoa

A nossa fé e as nossas crenças estão em constante mudança. Mesmo que alguém afirme que acredita nas mesmas coisas desde que era criança, o modo de relacionar essas crenças com o mundo terá certamente mudado.

Muitas vezes exaltamos a fé e defendemos um amplo conjunto de crenças, mas não paramos pensar: como manter uma espiritualidade saudável? Será que aquilo que eu acredito corresponde à realidade?

Com isso em mente, decidi criar uma série de textos onde pudéssemos refletir sobre a nossa fé e as nossas crenças.

Para começar, vamos descrever rapidamente a distinção entre fé e crença feita por Jacques Ellul.

Segundo ele, a crença dá respostas às nossas perguntas; exclui a dúvida; fornece conforto, refúgio e escape da realidade; eleva coisas, realidades e comportamentos ao status de definitivo.

A , por sua vez, espera e ouve pacientemente o silêncio; ela pressupõe a dúvida, questionando todas as convicções (morais, de crença e políticas); a única coisa que ela traz é o reconhecimento de nossa impotência, pequenez e finitude. Portanto, ter fé é assumir riscos.

Não existe razão objetiva para a fé; a fé tem de ser vivida. A fé não tem origem ou objetivo. No momento que admite qualquer objetivo ela deixa de ser fé. Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita.

O problema aparece quando a religião transforma os valores e práticas imperfeitos — tudo que é criado pelo ser humano é transitório — em algo absoluto. Isto é, quando a fé vira crença e esta não é devidamente questionada. Não preciso lembrá-los como a crença cega tem um potencial aterrorizante.

Muitas vezes reduzimos a crença àquilo que dizemos acreditar. Mas a crença é mais profunda que a mera aquiescência intelectual, ela é prática. Eu creio não naquilo que afirmo ser verdadeiro, mas naquilo que vivo como se fosse. Para ter uma espiritualidade saudável é preciso reconhecer nossas crenças e não tomá-las como algo absoluto. Temos que descobrir aquelas crenças que não percebemos que temos, questioná-las e nos jogar no mar da fé.

Como tenho insistido, nossas teorias só são válidas quando saem da abstração intelectual e se concretizam no cotidiano. Durante esta série, apresentarei algumas práticas e reflexões que creio serem úteis para construir uma fé saudável, isto é, que faz de nós pessoas mais dedicadas ao outro e ao planeta.

Qualquer inquietação, sinta-se à vontade para entrar em contato comigo.

Anúncios