Exercício #1: Humildade

por Furoa

As pessoas insistem com maior veemência sobre suas certezas quando sua segurança a respeito delas foi abalada. A ortodoxia exacerbada é um método para ocultar a dúvida. (Reinhold Niebuhr)

A fé, como vimos na introdução a estes exercícios, surge como experiência de finitude diante da imensidão do universo. Essa experiência inevitavelmente será racionalizada, isto é, traduzida em palavras (cf. Rudolf Otto). Porém, isso pode ter sérias consequências negativas. Racionalizar a fé pode nos levar a controlar a experiência religiosa dos outros, nos tornando donos da verdade, nos fechando em nós mesmos e ignorando a presença divina fora de nós. Assim, a religião se torna forma de controle social e alienação.

Nós não somos deuses, somos pequeninos, imperfeitos. Tudo que é humano é transitório. Enxergamos o mundo não como ele de fato é, mas de forma distorcida. Por isso, as crenças que nós mesmos criamos, não são a verdade última. O divino não se prende a palavras nem dogmas.

Diante disso, precisamos mudar de ideia, nossa fé tem que amadurecer e nossas crenças devem ser transformadas. Temos que ter uma postura de não-conhecimento, reconhecendo que sabemos pouquíssimo e que o pouco que sabemos pode estar errado.

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Quando reconhecemos que não podemos apreender o Sagrado, as discordâncias se tornam uma excelente forma de aprendizado. Como os filósofos Martin Buber e Emmanuel Lévinas nos ensinam, só somos humanos em relação com o outro e precisamos nos abrir a ele para alimentar nosso desejo do infinito — do Sagrado. Caso não o façamos, nos fechamos em nós mesmos, nos alienamos em nossos dogmas e não aproveitamos a vida em sua plenitude.

O apóstolo Pedro, para citar um exemplo bíblico, era convicto de que entrar na casa de um gentio e de que comer determinados alimentos era pecado, completamente abominável aos olhos de Deus. Seu povo obedecera essas regras por séculos. E Pedro vê que estava errado: o Sagrado pode ser encontrado fora do povo judeu, não precisamos seguir leis, mas apenas nos guiar pelo amor. Ou seja, Pedro descobriu que os dogmas mais bem sustentados de sua religião estavam errados.

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Na imagem acima: Deus

Proponho a você que faça o seguinte exercício: pense em três coisas que você acredita e duvide delas. Podem ser coisas nas quais você não tem motivos para acreditar, coisas que foram apenas transmitidas a você ou nas quais você nunca parou para analisar com profundidade. Se quiser, anote essas crenças.

Estou diante de vocês agora, indefeso como uma criança, condenado à morte por heresia. Eu sou culpado, pois tinha uma visão distorcida, enlameada e imprecisa do divino. Eu só tenho um pedido: que eu seja incendiado por um dentre vocês que é inocente dessa acusação. (Peter Rollins, no conto “O Herege”)

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