Sejam transeuntes

por Furoa

Divagações sobre a transitoriedade e o evangelho

 

Jesus disse: “sejam transeuntes”, isto é, passageiros, nômades, itinerantes. Essa frase mostra que o cristianismo é uma postura diante da realidade, não um conjunto de crenças ou práticas.

Ser transeunte significa nunca estar satisfeito, reconhecer que há em nós um buraco impreenchível.

É claro que a maioria das pessoas tentam preencher esse buraco. Tentam satisfazer seu vazio existencial com religião, pessoas ou objetos. Mas se tornam pessoas amarguradas, sempre desejando mais.

Por isso, ser transeunte é caminho de contracultura. É afirmar com a própria vida que tentar se satisfazer e se sentir confortado é alienante. Basta à vida o sentimento de estar vivo.

Ser transeunte é reconhecer a efemeridade de todas as coisas, principalmente de nós mesmos. Jesus não disse para irmos a determinado lugar, mas afirmou que nossa condição de existência é a transitoriedade.

Somos todos uma metamorfose ambulante. Nossa personalidade e nossa visão de mundo não são algo sólido e imutável, mas algo dinâmico, sempre se transformando de acordo com as experiências que temos e com as pessoas com as quais nos relacionamos. Ser transeunte é mais do que estar sempre em movimento, é reconhecer que nós somos movimento.

Viver sempre na caminhada, sem nunca ter atingido seu fim, é o estilo de vida mais libertador que existe. Nos permite estar felizes em qualquer situação e a desconstruir os ídolos que nos são vendidos: o consumo, a religião, etc.

Nós, transeuntes, não nos preocupamos em discutir ideias abstratas, pois nos dedicamos à textura da vida. Explicamos nossa fé não com palavras, mas com abraços.

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