(Cyber)Teologia Imanente: envolvimentos com a realidade

por Furoa

Uma definição comum de Teologia, mas já destruída pela roda da história e pelo desenvolvimento do conhecimento, é o estudo sobre o Sagrado. Como é óbvio, essa definição não faz sentido, já que é impossível estudar o Sagrado.

Uma possibilidade melhor e mais bem aceita entre os acadêmicos sérios — excluo aqueles que não conseguem ver nada no mundo além do que eles já creem — é que a Teologia seja o estudo sobre a experiência humana do Sagrado.

Colocando em outras palavras, poderia dizer que a Teologia é o estudo do que move o ser humano em sua relação com o outro e o mundo. Numa perspectiva cristã, podemos chamar essa força motriz de horizonte, ou seja, Deus.

Estudar o que move o ser humano é importante em todas as áreas da vida e da sociedade, possibilitando uma vida melhor e uma sociedade mais justa. A Teologia, pela sua própria definição, precisa ser imanente, estar em constante envolvimento com a realidade, para que possa cumprir seu papel de apresentar um bom horizonte à humanidade.

Os desenvolvimentos da Epistemologia (a teoria do conhecimento), as duas guerras mundiais e a crise ecológica nos obrigam a repensar a teologia. Visto que não conhecemos as coisas em si mesmas, apenas como elas aparecem a nós e que a linguagem molda nossa experiência, como podemos falar de Deus? Após o sofrimento tão grande como o das guerras do século passado, é possível acreditar num Deus que está no controle absoluto de tudo que acontece? É possível afirmar que a salvação está reservada a uma dimensão pós-morte quando estamos destruindo nosso lar?

Não podemos falar de Deus mesmo, podemos apenas usar metáforas que apontam para o divino. Não podemos crer num Deus que decreta a morte de seis milhões de judeus. Não podemos crer num Deus que despreza a sua própria criação.

Hoje, o fundamentalismo político e religioso renasce, a desigualdade dilacera grande parte da humanidade e a crise ecológica segue destruindo o planeta. Creio, e espero estar certo, que a Teologia pode nos ajudar a encontrar uma saída.

A Teologia, através de sua antropologia, nos ensina que nós só somos humanos na relação com o outro e que todo ser humano tem os mesmos direitos. Com isso, a desigualdade social é uma abominação. Pois se eu tenho o direito de comer, toda a humanidade também tem.

Outra lição da Teologia é a finitude humana. Somos seres pequeninos diante do universo infinito. Qualquer tentativa de criar uma lei imutável e aplicável a todo ser em qualquer parte do universo ou de dominar infinitamente sobre um planeta finito soa como insensatez e absurdo.

É preciso redescobrir aquilo que nos move — a tarefa chave da Teologia. Nosso movimento não pode ser resultado das besteiras proferidas pelos sacerdotes/publicitários do Deus-Mamon. Precisamos ter como horizonte a utopia de um mundo justo, igualitário, livre e pacífico.

Nosso tempo nos abre inúmeras possibilidades de uma Teologia envolvida com a realidade. O desenvolvimento da Inteligência Artificial, por exemplo, precisa dialogar com a antropologia teológica, questionando o que é ser humano em sua relação com a tecnologia. Que o núcleo subversivo da Teologia — pois ela é um anti-conservadorismo — nos ajude a caminhar para um horizonte melhor.

Anúncios