Deus existe?

por Furoa

O papel da religião, isto é, do discurso sobre o sagrado, é apontar para o divino. Mas como diz o ditado oriental, o sábio aponta para a lua, o tolo olha o dedo.

O tolo cético diz que a religião está cheia de contradições, é apenas um mito, não pode ser comprovada e deixa várias perguntas em aberto.

O tolo religioso, ignora as contradições da realidade, interpreta literalmente os mitos da religião, acha que pode capturar o inefável e que tem respostas para tudo.

Um tema que deixa claro o embate entre os dois tipos de tolos apontados acima, é a existência de Deus.

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O problema já começa no fato de que os debatedores pressupõem aquilo que querem provar. Em vez de darem um passo para trás e considerarem honestamente a questão, eles simplesmente procuram provas para aquilo que acreditam ou querem acreditar.

Uns argumentam que já experimentaram Deus e, por isso, Deus existe. Isso ignora o fato de que nossas experiências não são totalmente confiáveis, de que muitas experiências acontecem apenas dentro de nossa cabeça, sem qualquer interferência objetiva, e de que, se experiência justificasse alguma coisa, Javé, Thor, Zeus, Maria, Krishna, etc. seriam todos verdadeiros.

Um problema maior é aquele diagnosticado por Paul Tillich: argumentar pela existência de Deus é negar a Deus. Considerar tal discussão é uma nonsense, pois concebe Deus como um objeto qualquer e como se Deus pudesse ser analisado pela nossa limitada razão. Deus é o que transcende a — está além de — tudo. Pode-se argumentar sobre a existência de extraterrestres e do Monstro do Lago Ness, mas Deus transcende o próprio conceito de existência.

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Creio piamente que no futuro essa questão sobre a existência de Deus será inexistente. Nós teremos aprendido que, não só algo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo, como também realidade e ficção se misturam. Nós, seres humanos, não temos acesso ao mundo como ele é, apenas ao mundo como nossas narrativas dizem que ele é.

Simone Weil se destaca nesse tema por saber abraçar as contradições como ninguém:

Caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe: Deus não existe. Qual o problema? Tenho certeza de que há um Deus no sentido de que tenho certeza que meu amor não é uma ilusão. Tenho certeza de que não há um Deus no sentido de que tenho certeza que nada de real se assemelha ao que posso conceber quando pronuncio esse nome. Só que o que não posso conceber não é uma ilusão.

Infelizmente, além do fato da maioria das pessoas não terem nenhum conhecimento de epistemologia, a maioria de nós ainda vive com a ideia de que uma coisa não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo (o chamado princípio da não-contradição). Esse princípio, como os orientais já sabem há mais de dois mil anos e só recentemente foi admitido pela matemática ocidental, não poderia estar mais longe da verdade.

Que somos nós sem o socorro daquilo que não existe? ~Valéry

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