Jesus Não É Cristão

Teorizando a prática cristã

Entre a exclusão e o abraço

Em que nós cremos? Essa é uma pergunta extremamente difícil de responder. Nossas crenças 1. estão em constante mudança, 2. muitas delas se contradizem e 3. duvidamos de muitas outras. Para complicar mais a história, 4. nós somos enganados por nós mesmos. Pensamos que cremos em algo, mas nossas atitudes nos condenam, mostrando que não acreditamos de fato naquilo. E vice-versa: pensamos que não acreditamos em algo, mas agimos como se fosse real.

Tentando resolver esse dilema, já afirmei que “não creio no que afirmo ser verdadeiro, mas naquilo que vivo como se fosse” e que “crenças não levam ninguém a Deus”. Agora, preciso levar isso adiante.

É fato que nossas ações escondem crenças profundas que nem sempre percebemos. O que fazemos e como entendemos o mundo à nossa volta é resultado de uma série de fatores. A vida é uma experiência moldada pela linguagem, cultura, ideologia, etc. O modo como vivemos demonstra muito daquilo que cremos.

Aplicando isso a um contexto religioso, se eu trato quem pensa diferente de mim com violência, isso revela que eu creio num Deus intolerante. Se eu doo dinheiro à igreja esperando receber muito mais de Deus, acredito num Deus manipulável e revelo que eu mesmo sou corruptível, apto a abrir mão de valores em prol de riquezas. Se eu decido abrir mão de riquezas e reconhecimento para estar com os oprimidos, eu acredito num Deus que toma partido dos sofredores e sofre conosco. Assim, as nossas ações formam as nossas crenças sobre Deus, que, por sua vez, também influenciam no modo como agimos. Nossas crenças moldam as nossas ações, que moldam as nossas crenças e assim infinitamente.

Precisamos ter em mente que o que falamos sobre Deus não é Deus mesmo. Só podemos falar de Deus a partir de metáforas. Essas metáforas apontam para algo maior, mas não são o próprio Deus. Por isso, o que falamos sobre Deus mostra muito de nós mesmos. E antes de estarmos dispostos a falar de Deus, precisamos estar abertos a ouvir Deus.

Embora as crenças tenham um aspecto individual, elas não se limitam ao indivíduo, pois elas não existem independentemente do contexto social e político nos quais estão inseridas. Além disso, muitas crenças formam o jeito que a sociedade se organiza. E mesmo que um indivíduo não acredite nessas crenças, a sociedade como um todo acredita por ele. As crenças da sociedade, embutidas na cultura e na linguagem que recebemos, formam o modo como agimos no mundo.

É comum entender errado a fala de Jesus: “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Temos que entender que, no contexto de Jesus, conhecer não significa assentir intelectualmente, mas ter um encontro íntimo com algo. Conhecer a verdade, por exemplo, não é descobrir que Deus é amor, mas agir em resposta ao amor divino amando o outro.

Vivemos em um contexto repleto de intolerância com as crenças alheias. Nos dividimos facilmente e até matamos por termos uma ideia diferente sobre a realidade. Porém, descobrir o que nós mesmos cremos, embora seja um algo necessário, é uma tarefa árdua, constante e impossível de se alcançar totalmente. Precisamos sair do paradigma centrado em nossas ideias sobre o mundo. Ideias não mudam nada, o que muda são nossas ações.

Meu convite a todas as pessoas é reconhecerem a limitação de suas racionalidades e dedicarem-se à teologia do abraço: em vez de discutir temas menos importantes e irrespondíveis, tome um chá e abrace a pessoa que discorda de ti. O abraço é a mais profunda e bela crença do mundo. O ato de abraçar demonstra que acreditamos na vida para além das palavras e que pessoas são mais importantes que opiniões. Que a fé no abraço nos una!

Sejam transeuntes

Divagações sobre a transitoriedade e o evangelho

 

Jesus disse: “sejam transeuntes”, isto é, passageiros, nômades, itinerantes. Essa frase mostra que o cristianismo é uma postura diante da realidade, não um conjunto de crenças ou práticas.

Ser transeunte significa nunca estar satisfeito, reconhecer que há em nós um buraco impreenchível.

É claro que a maioria das pessoas tentam preencher esse buraco. Tentam satisfazer seu vazio existencial com religião, pessoas ou objetos. Mas se tornam pessoas amarguradas, sempre desejando mais.

Por isso, ser transeunte é caminho de contracultura. É afirmar com a própria vida que tentar se satisfazer e se sentir confortado é alienante. Basta à vida o sentimento de estar vivo.

Ser transeunte é reconhecer a efemeridade de todas as coisas, principalmente de nós mesmos. Jesus não disse para irmos a determinado lugar, mas afirmou que nossa condição de existência é a transitoriedade.

Somos todos uma metamorfose ambulante. Nossa personalidade e nossa visão de mundo não são algo sólido e imutável, mas algo dinâmico, sempre se transformando de acordo com as experiências que temos e com as pessoas com as quais nos relacionamos. Ser transeunte é mais do que estar sempre em movimento, é reconhecer que nós somos movimento.

Viver sempre na caminhada, sem nunca ter atingido seu fim, é o estilo de vida mais libertador que existe. Nos permite estar felizes em qualquer situação e a desconstruir os ídolos que nos são vendidos: o consumo, a religião, etc.

Nós, transeuntes, não nos preocupamos em discutir ideias abstratas, pois nos dedicamos à textura da vida. Explicamos nossa fé não com palavras, mas com abraços.

Exercício #1: Humildade

As pessoas insistem com maior veemência sobre suas certezas quando sua segurança a respeito delas foi abalada. A ortodoxia exacerbada é um método para ocultar a dúvida. (Reinhold Niebuhr)

A fé, como vimos na introdução a estes exercícios, surge como experiência de finitude diante da imensidão do universo. Essa experiência inevitavelmente será racionalizada, isto é, traduzida em palavras (cf. Rudolf Otto). Porém, isso pode ter sérias consequências negativas. Racionalizar a fé pode nos levar a controlar a experiência religiosa dos outros, nos tornando donos da verdade, nos fechando em nós mesmos e ignorando a presença divina fora de nós. Assim, a religião se torna forma de controle social e alienação.

Nós não somos deuses, somos pequeninos, imperfeitos. Tudo que é humano é transitório. Enxergamos o mundo não como ele de fato é, mas de forma distorcida. Por isso, as crenças que nós mesmos criamos, não são a verdade última. O divino não se prende a palavras nem dogmas.

Diante disso, precisamos mudar de ideia, nossa fé tem que amadurecer e nossas crenças devem ser transformadas. Temos que ter uma postura de não-conhecimento, reconhecendo que sabemos pouquíssimo e que o pouco que sabemos pode estar errado.

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Quando reconhecemos que não podemos apreender o Sagrado, as discordâncias se tornam uma excelente forma de aprendizado. Como os filósofos Martin Buber e Emmanuel Lévinas nos ensinam, só somos humanos em relação com o outro e precisamos nos abrir a ele para alimentar nosso desejo do infinito — do Sagrado. Caso não o façamos, nos fechamos em nós mesmos, nos alienamos em nossos dogmas e não aproveitamos a vida em sua plenitude.

O apóstolo Pedro, para citar um exemplo bíblico, era convicto de que entrar na casa de um gentio e de que comer determinados alimentos era pecado, completamente abominável aos olhos de Deus. Seu povo obedecera essas regras por séculos. E Pedro vê que estava errado: o Sagrado pode ser encontrado fora do povo judeu, não precisamos seguir leis, mas apenas nos guiar pelo amor. Ou seja, Pedro descobriu que os dogmas mais bem sustentados de sua religião estavam errados.

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Na imagem acima: Deus

Proponho a você que faça o seguinte exercício: pense em três coisas que você acredita e duvide delas. Podem ser coisas nas quais você não tem motivos para acreditar, coisas que foram apenas transmitidas a você ou nas quais você nunca parou para analisar com profundidade. Se quiser, anote essas crenças.

Estou diante de vocês agora, indefeso como uma criança, condenado à morte por heresia. Eu sou culpado, pois tinha uma visão distorcida, enlameada e imprecisa do divino. Eu só tenho um pedido: que eu seja incendiado por um dentre vocês que é inocente dessa acusação. (Peter Rollins, no conto “O Herege”)